(Casteição, Mêda, 25 de Dezembro)

 

Neste dobrar de década, serão estranhos os tempos que aí vêem ou simplesmente estranhos são os tempos de onde vimos e, por consequência, para onde os passos civilizacionais nos conduzem?

Educado como fui pela bitola católica familiar, nem o meu crescente culto pelo assumir crescente da minha liberdade na fé e no diálogo que por ela quero ter com o divino me faz recusar á igreja romana a sua importância e o papel importante que (ainda) desempenha na sociedade ocidental, mormente na Europa.

Mas esse papel deverá ser um papel de defesa dos muros dogmáticos que sustentam a doutrina e a estrutura ou um assumir real e crescente da necessidade de defesa da condição humana, da decência social e do combate à exclusão e ao desagregar do respeito pelo indivíduo e pelo se direito a uma vida com condições para lá os limiares da pobreza, nos seus mais diversos domínios?

Sou um admirador das qualidades intelectuais de Joseph Raiztiger mas as recentes decisões dogmáticas da cúpula romana mais do que trombetas angélicas, trazem o soar do alarme.

Nascido de uma família pobre, Bento XVI tem um percurso académico verdadeiramente fora de série, embora sempre ligado ao estudo e defesa do dogma, como está bem patente nas temáticas das diferentes teses que lhe permitiram galgar os degraus da escala universitária. Tenho pesquisado e estudado o papel do actual papa enquanto pensador e académico. É profundo e sólido no que escreve e difícil de ser apontado em contradição ou fragilidade intelectual. Ostenta como seu lema episcopal ser um «Colaborador da verdade»; assim o explicou ele mesmo: «… a minha nova missão; o que estava em jogo, e continua a estar, é seguir a verdade, estar ao seu serviço. (…) e, todavia, tudo se desmorona se falta a verdade».

Não poderia estar mais de acordo. Mas, que verdade?

A que nos leva o fechar dos olhos da Igreja para a evolução do mundo, tolhendo-lhe a acção junto dos fiéis pelo desfasamento entre o fundamentalismo dogmático e as necessidades reais dos vivos?

Ao Papa, farol maior de uma instituição incontornável, pedem-se passos firmes, calmos mas significativos no sentido de evoluir, sem desvirtuar, o papel da igreja na sociedade moderna, tornando-a capaz de ser um ninho de acolhimento, um farol de ecumenismo e instituição paladina da verdade sim, mas ciente das mudanças que a sociedade contemporânea trouxe não só ao colectivo mas também ao comportamento do indivíduo.

E o “caminho da verdade” não toma rota certa se for pela proibição dos casamentos inter-religiosos, pelo acolhimento de padres anglicanos fundamentalistas ou afastando os divorciados da comunidade e dos rituais católicos (cinicamente permitindo que baptizem os filhos!), para já não falar na imposição do latim nos ritos.

Do pensador sólido moderado, está a nascer um monarca conservador.

Eis o cerne do desfasamento entre a rigidez doutrinária e as necessidades crescentes do rebanho. Mais do que cerrar fileiras, o Papa parece construir um muro de defesa, deixando os crentes de fora!

 

EMENTA DA SEMANA:

1 Livro: “Uma história da Guerra”, de John Keegan.

1 CD: “The Crying Light”, de Anthony and the Johnsons.

1 DVD: “As sandálias do Pescador”, de Michael Anderson.