(Celje, Eslovénia, 1 de Dezembro)
O que leva um cipriota a viajar 20 horas sem descanso, com várias escalas de avião e um carro alugado, ou este português a trilhar o mesmo caminho, voando de e para aeroportos e cruzando os Alpes de comboio, colocando no seu bornal pessoal do tempo 14 horas cumpridas sem interregno, desde que saiu de Penafiel?
Simultaneamente, duas romenas observam o conta-quilómetros do seu veículo alemão galgar números sem fim, no umbigo da Europa, para rumarem ao mesmo ponto de encontro, num vale com laivos de encantado, roçando os Alpes e em plenos Balcãs.
Eis-nos em Celje, pequena cidade eslovena, palco de uma formação comunitária para o incremento de laços e a promoção da cidadania europeia, onde os viajantes encontraram companheiros de rotas diferentes com o mesmo destino, vindos de Itália e da Macedónia, recebidos em festa pelos participantes locais.
Para que o linguajar não se tornasse biblicamente “babeliano”, lá imperou o inglês, sempre dominante nos meios internacionais.
Mas o que é isso de se ser um cidadão europeu? Pertencer simplesmente a um país do continente? Da União? Votar nas eleições europeias? Sentir os efeitos ora positivos, ora perversos, do manancial financeiro que a aparentemente inesgotável fonte de Bruxelas vai fornecendo, em nome de uma coesão social, cada vez mais mítica?
Existirá esta consciência de pertencermos à Europa no comum dos habitantes de um qualquer país integrante do espaço ou teremos que nos contentar com uma Europa unida nos interesses políticos, económicos e sociais, que desmoronam perante nacionalismos ou mesmo perante uma simples sobreposição de um interesse nacional de um dos estados?
Durante uma semana, um conjunto de professores debateu, conviveu e reforçou a sua condição de cidadão da vasta Europa, essa mãe ausente mas suprema sem a qual nenhum de nós almejaria usufruir da modernidade.
Mas, uma coisa é certa, se o entendimento sobre a consciência europeia era pacífico, o traço nacional de cada um espreita a cada esquina do tempo, nem que seja na chamada diária para casa que transformava a sala de convívio na confusão cantada das múltiplas línguas de cada um!
Dizem que o amor não conhece língua, mas parece que é transmitido juntamente com a saudade em todas as línguas!
EMENTA DA SEMANA:
1 Livro: “First as Tragedy, then as farce”, de Slovoj Zizek.
1 Disco: “A thousand shark’s teeth”, dos My Brightest Diamond.
1 filme: “Gomorra”, de Matteo Garrone.

4 comentários
Comentários feed para este artigo
Fevereiro 1, 2010 às 3:26 pm
dieelektrischenvorspiele
É com um enorme prazer que depois de lêr de forma assídua as suas crónicas semanais, publicadas no formato convencional, saber que agora também as posso relêr na sua versão online!
Mais um vez Dr. Amândio seja bem vindo ao já não tão novo mas sempre admirável mundo da blogosfera!
Fevereiro 1, 2010 às 3:53 pm
nuno da cunha ferreira
Europa, mãe carinhosa que aconchega em seu seio todos os seus filhos ciente de seus defeitos e virtudes, tendo no seu extremo mais a oeste, Portugal.
Portugal, um dos seus filhos mais velhos e ao mesmo tempo dos mais pequenos. Este seu filho é fustigado a oeste pelo Atlântico que há séculos chama pelos marinheiros portugueses, a sul é aquecido e iluminado pelo Mediterrâneo e “envolvido” por “nostros hermanos” a norte e este.
Este país tem no seu ventre um povo por um lado é marcado pela lembrança do velho do Restelo e por outro sente-se inundado pelo optimismo e modernismo da Europa.
Sou do Mundo,
Sou da Europa,
Sou de Portugal.
Fevereiro 1, 2010 às 6:58 pm
Artur Moura Queirós
Há muitos anos que ouço as pessoas ditas “esclarecidas” a dizerem imensas vezes que já não se sentem Portuguesas, mas sim Europeias.
Sempre senti na voz de quem profere tal afirmação um certo elitismo, nascido num espírito e gosto cosmopolita. Eu sempre me senti um Português-Europeu, ausente dos vícios e tiques de uma Pátria Medieval prenha de nostalgia e de um Portugal contemporâneo pai de uma “pequenez alimentada por eternos lamentos”.
O seu texto suscitou-me este pequeno comentário que é incomparavelmente pequeno perante todos os pensamentos que me surgem sempre que ouço o Dr. Amândio a falar das suas experiências de vida e ou de como a História explica o nosso presente
Fevereiro 1, 2010 às 7:19 pm
Alberto Guimaraes
Numa época em que o Mundo se divide em facções, em que a religiao e os interesses económicos sao o ponto de uniao em cada uma dessas facçoes, é fundamental que cada um de nós leve a mão à sua consciencia… reflectindo sobre si, sobre o outro, sobre a sua comunidade, sobre o seu país, sobre o seu Mundo…
Com este brilhante texto o Dr. Amândio demonstra de forma clara o que é ser um verdadeiro cidadão Europeu, que não se desliga da sua verdadeira identidade de Português!
Um grande Abraço